segunda-feira, 8 de agosto de 2011

CRONOLOGIA BIOGRÁFICA

Foto: Teófilo Soares Gomes. Acervo: Casa da Memória.





"Cronologia biográfica": elaborada por Domingos van Erven. E-mail: dvanerven@gmail.com


-1854- Teófilo nasce na vila de Antonina no dia 16 de fevereiro (segundo Sebastião Paraná- “Galeria Paranaense”, Curitiba, 1922, p. 70), filho de Manoel Soares Gomes (1829-1891), comerciante português nascido no Porto, e de D. Maria Gonçalves Moraes Soares, nascida na província de Santa Catarina, filha do Tenente Coronel Bento Gonçalves de Moraes Cordeiro. Segundo Ermelino de Leão (em “Antonina- Factos e Homens”, p. 54), Moraes e Gonçalves Cordeiro descendem dos mais antigos troncos familiares dessa região do litoral paranaense

-...- “estudou primeiras letras na cidade natal” (David Carneiro e Túlio Vargas-- “História Biográfica da República no Paraná”, Curitiba: Banestado, 1994, p. 119)

-.....- falecimento de sua mãe

-1864- em 20 de outubro, seu pai casa-se, em 2as. núpcias, com D. Rita Adelaide Coutinho na cidade de Desterro, atual Florianópolis, capital da província de Santa Catarina. Desse casamento resultam três filhos, Julieta, Edmundo e Franklin, meio-irmãos de Teófilo (cf. nota de falecimento de Franklin Soares Gomes publicada nos jornais “Gazeta do Povo” e “Diário da Tarde”, ambos de 6/2/1922, que afirmam ser o extinto irmão do Cel. Teófilo Soares Gomes)

-1866- no jornal “Dezenove de Dezembro” de 21.07.1866, p.4, em “Movimento do porto de Paranaguá” consta o registro da entrada, em 15 de julho, do vapor americano “Tijuca” procedente do Rio de Janeiro. Dentre os passageiros, é citado Teófilo Soares Gomes e também Antônio Alves de Araújo

-1866- no jornal “Dezenove de Dezembro” de 3.11.1866, p.4, em “Movimento do
porto de Paranaguá”, nos registros de saídas de navios, consta menção ao passageiro Teófilo Soares Gomes do iate “Desempenho”, que saiu para Santa Catarina no dia 28 de outubro de 1866

-1873- no DD de 5 de novembro desse ano, p.3, consta nota sob o título “Passageiros”. Um destes (chegados a Paranaguá (?) ) é Teófilo S.Gomes, passageiro do vapor “Corumbá”.

-1876- a edição do DD de 30 de agosto desse ano, p. 2, informa que Teófilo Soares Gomes e outros citados, inclusive Francisco David Perneta, são passageiros do “Camões”, “entrado do Rio de Janeiro, no dia 27”.

-O “Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província do Paraná para 1877”, organizado por José Ferreira de Barros, Rio de Janeiro, 1876, p.146, contém a informação de que Joaquim Soares Gomes (irmão de Manoel Soares Gomes, tio portanto de TSG) integra uma comissão nomeada para formar a companhia da “Sociedade Teatral Thalia Paranaguense”. Dessa comissão também fazem parte Manoel Antônio Guimarães e Presciliano da Silva Correia, dentre outros.

-Em 1877, uma edição da “Província do Paraná” do mês de junho, provavelmente (*), p.4, publica nota de agradecimento da Comissão encarregada do baile oferecido ao barão de Tefé e ao 1º tenente Aprígio dos Santos Rocha a todos aqueles que concorreram para o êxito da festa. Assinam a nota Joaquim P.Pinto Chichorro, Benigno Augusto Pinheiro Lima e Theophilo Soares Gomes. Está datada assim: “Antonina, 10 de junho de 1877”. Anteriormente, na edição do de 9 de junho, p. 3, o jornal publicara matéria elogiosa ao barão de Tefé, que estava encarregado de executar melhorias no porto de Antonina. Posteriormente, a PP de 7.07.1877- p. 2 divulga carta dele, ao retornar para a corte, dirigida à Câmara Municipal de Antonina, em que agradece a recepção e a amabilidade de que ele e seu ajudante foram alvos.

(*) A primeira página do jornal, onde constaria a informação sobre a data, foi extraviada.

-Na edição da “Província do Paraná” de 11.08.1877- p.3 uma nota pede a atenção dos leitores para o anúncio da casa de TSG, de Antonina, que consta na seção competente do jornal (ênfase do anúncio: a novidade dos produtos. TSG é o único agente nesta província do extrato de lúpulo fornecido por Lidgerwood MF’G. Co. Limited). Na edição de 18.08.1877- p. 3 do mesmo jornal consta outro anúncio de TSG, estabelecido em Antonina: ele vende vinhos importados.

-No DD de 24.10.1877- p. 3-4, José Palmella (*), ao retirar-se da província, manifesta, a uma série de pessoas, “reconhecimento pelas provas de simpatia, finezas e obséquios recebidos”. Em Paranaguá, dentre outros, o vice-cônsul português Joaquim Soares. Em Antonina, dentre outros, Theophilo Soares e Antonio Soares Gomes. Em Curitiba, dentre outros, o major Manoel Negrão, Alfredo Munhós e cavalheiros que fizeram parte das comissões enviadas pelo club “Literário Curitibano”, das lojas- “Apóstolo da Caridade”, “Concórdia 4”. A nota está datada assim: “Curitiba, 22 de outubro de 1877”.

(*) Conforme o DD de 27.10.1877- p. 3, José Palmella era um “ilustre escritor português” /.../ “dedicado exclusivamente à propagação do ensino público”. Edições anteriores do jornal referem-se às conferências que ele proferiu no Paraná. Daqui ele seguiu para Santa Catarina.

-1879- no “Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província do Paraná para 1880” organizado por José Ferreira de Barros, Rio de Janeiro, 1879, p. 123, consta a informação de que TSG naquele ano é Adido à Alfândega de Paranaguá e Ex-Administrador da Mesa de Rendas de Antonina
-a “Gazeta Ilustrada”, editada em Curitiba, publica em dezembro de 1888 matéria (com gravura) sobre o engenho de arroz em Antonina, propriedade de TSG, “ativo, probo e inteligente industrial”. O engenho “é o primeiro e único em seu gênero que existe nesta província”. Ocupa um “vastíssimo edifício”. As máquinas são italianas. O engenho “beneficia 20.000 sacas de arroz anualmente, que são exportadas, em sua maior parte, para a corte. Ocupa 18 operários, 1 guarda-livros e 1 ajudante de escritório. É enorme o capital ali empregado, e são reais os benefícios prestados por aquele estabelecimento aos lavradores de Paranaguá, Antonina e S. Francisco, já suprindo-lhes a planta e adiantando-lhes dinheiro para as despesas do plantio e colheita, já comprando o arroz por bom preço.” (“Gazeta Ilustrada”, ano I, nº 4, Curitiba, 20 de dezembro de 1888)

-1876- Teófilo casa-se no dia 9 de dezembro, em Antonina, com D. Maria Rosa Cumplido, filha do Sr. Fanor Cumplido (*), conforme nota publicada na “Província do Paraná” de 17 de dezembro desse ano, p. 2. O jornal defendia as posições do partido Liberal. Desse casamento resultarão cinco filhos. Em 1922, ano de publicação de “Galeria Paranaense”, de Sebastião Paraná”, fonte dessas informações, quatro desses filhos já haviam morrido, “sobrevivendo um, o engenheiro civil Heitor Soares Gomes, eleito, em 1920, Prefeito Municipal de Antonina” (p.70). Francisco Negrão afirma que Maria Rosa era filha de Hipólita Alves de Araújo Cumplido e Fanor Cumplido, natural de Montevideo, “grande industrial e exportador de erva-mate no Paraná” (“Genealogia Paranaense”, vol. 3, p.72)
Segundo Ermelino de Leão (cf. verbete “Araújo” do “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná”, vol. I, p.131-132), D. Hipólita -- a sogra de TSG -- era irmã do Comendador Antônio Alves de Araújo, do Conselheiro Manoel Alves de Araújo, do Brigadeiro Hipólito Alves de Araújo, do Comendador Henrique Alves de Araújo, de D. Domitila Alves de Araújo (casada com o Conselheiro Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá, chefe do Partido Liberal e ex-Ministro da Agricultura do Império), do Cel. Joaquim Alves de Araújo, de D. Maria Rosa de Araújo, casada com Manoel de Leal Pancada, e de João, “morto sem descendência”.
O Comendador Antônio Alves de Araújo (1830-1888), nascido em Morretes, foi vice-presidente da Província do Paraná (cf. David Carneiro—“História do Período Provincial do Paraná”). Por outro lado, o Conselheiro Manoel Alves de Araújo (1836-1910), também nascido em Morretes, pertenceu ao Conselho de Estado e foi Ministro do Império. Teófilo dedica sua peça “Os milagres de N.Sra. do Pilar” a ambos, chamados de “parentes”. Dedica também a peça ao “seu pai e amigo”). Segundo Ermelino de Leão (in “Antonina- Factos e Homens”, p. 230), “O Comendador Antônio Alves de Araújo era filho do opulento comerciante Capitão Hipólito José Alves, neto do último Capitão-mor de Antonina Manoel José Álvares.” Ou Alves, conforme é mencionado no “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná” do mesmo autor. De acordo com “Antonina- Factos e Homens” (p. 68), o Capitão-mor era português, da região de Braga, e possuía um grande estaleiro na região. Foi juiz ordinário e fundador da Igreja de Bom Jesus do Saivá. Em 1835 ele era o “vulto mais prestigioso da Vila” (p. 111)
Por outro lado, o jornal “Dezenove de Dezembro” de 29 de abril de 1857, p.4, quando noticiou o falecimento na cidade de Antonina do cap. Hipólito José Alves (pai da sogra de TSG) considerou-o “talvez o maior capitalista da província, e cuja recente mudança para aquela cidade era considerada como um grande elemento para sua futura prosperidade.”

(*) O DD de 17.03.1875- p.2 menciona Fanor Cumplido como um dos onze “licitantes” que apresentaram proposta para a conservação e reconstrução de 98 km da estrada da Graciosa e ramais durante cinco anos. Os outros licitantes incluem a Companhia Florestal Paranaense e o Comendador Manoel Gonçalves de Moraes Roseira.

-...- falecimento da primeira esposa de TSG

-...- Teófilo casa-se, em segundas núpcias, com D. Maria Rosa de Araújo, filha do Comendador Henrique Alves de Araújo (1850-1915), nascido em Antonina, conforme nos informa Francisco Negrão. Como se infere pelo que foi dito acima, o Comendador Henrique, agora seu sogro, era tio da primeira esposa de TSG, também chamada Maria Rosa, prima-irmã da segunda esposa. Desse casamento eles tiveram uma filha, Sara, casada com Adolar Hengreville Hintze (“Galeria Paranaense”, op. cit., p. 70)

1884- um ofício que integra o acervo do Arquivo Público do Paraná mostra que, em 29 de janeiro desse ano, TSG era o Administrador da Mesa de Rendas de Antonina (no ofício, TSG comunica ao Secretário Interino do Governo da Província que o carroceiro leva uma caixa que chegou do Rio de Janeiro, pelo vapor Rio Negro, para ser entregue naquela Secretaria)

-1884- é fundada a Sociedade Recreio Dramático de Antonina e Teófilo é seu primeiro presidente, segundo Maria Thereza B.Lacerda (“Subsídos para a História do Teatro no Paraná”, 2a. ed., Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, 1980- p. 13)-

-conforme ainda essa fonte, no Departamento de Arquivo Público do Paraná consta um ofício, datado de 3 de janeiro de 1884 dirigido por Teófilo, presidente daquela Sociedade, ao presidente da Província Oliveira Belo afirmando que “iria aplicar a renda de alguns espetáculos em benefício das crianças indigentes.” (p.53); afirma-se também aí, com base no jornal “Dezenove de Dezembro” (Curitiba, 6 de março de 1884), que em dezembro do mesmo ano era encenado em Antonina o drama de Teófilo “Os milagres de Nossa Senhora do Pilar” e da comédia “O lobisomem” (p.53)

-1884- Teófilo envia ao Conservatório Dramático Brasileiro (Rio de Janeiro) seu drama “Milagres de Nossa Senhora do Pilar”. A fonte dessa informação é Tasso da Silveira que o considera “o fundador da literatura dramática no Paraná”. Expressa-se sobre ele nestes termos: (Teófilo) “nascido aliás em S. Catarina, mas tendo vivido toda uma longa vida em terra paranaense, já em 1884 submetia ao julgamento do Conservatório Dramático Brasileiro (Rio) seu drama Milagres de N. Sra. do Pilar, no qual reconheceu originalidade e vocação para o gênero o Barão de Paranapiacaba. Outra peça de Teófilo Soares Gomes, Gererê, ou o Quilombo do Sargento, drama em quatro atos, submetido igualmente ao juízo daquele Conservatório, alcançou consagração verdadeira. A vida política roubou à grande arte o melhor das atividades do dramaturgo que, no entanto, ainda produziu outras peças.” (“Literatura Paranaense- Notícia Histórica” in Paraná- “1º Centenário da Emancipação Política do Paraná 1853-1953- p. 20)

-segundo o “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná” (p. 493): “/.../ foi desta cidade litorânea (Antonina) que proveio o primeiro e o mais representado dramaturgo paranaense: Teófilo Soares Gomes, presidente da Sociedade Recreio Dramático. Seu grupo viajou para cidades como Curitiba e Lapa, apresentando com sucesso de público e crítica a peça de sua autoria “Os milagres de Nossa Senhora do Pilar ou a Vingança de Badichô”, de 1884. Teófilo Soares Gomes escreveu ainda outros três dramas – “A quiromante”, “Stella” e “Gererê ou O quilombo do sargento” (1883) – e três comédias: “O lobisomem”, “Oh, ferro!” e “Xisto numa república de estudantes”. As comédias seguem a tradição de Martins Pena na concepção de personagens, na dialogação e nas situações. Os dramas, como “Gererê”, fazem a apoteose da honra e a exaltação da virtude e da bondade cristãs, castigando os infiéis e os criminosos, numa dualidade maniqueísta que tem em “Os milagres de Nossa Senhora do Pilar” um exemplo perfeito. Esta peça, por incluir cenas de transformações miraculosas – espadas tornam-se flores, túmulos e barricas surgem do nada em cena aberta – filia-se à forma teatral conhecida como mágica, muito apreciada no período entresséculos no Brasil. As personagens, situações e a solução dramática dos conflitos apenas confirmam os modelos românticos do período.”

-Sebastião Paraná afirma que as peças de TSG eram editadas no Rio de Janeiro, nas livrarias Cruz Coutinho e J. Ribeiro dos Santos (“Galeria Paranaense”, p. 73) (obs: J.= Jacinto)

-segundo o “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná” (p.197), “as duas únicas obras localizadas nos acervos paranaenses “ são “Os milagres de Nossa Senhora do Pilar ou A vingança de Badichô” (1884) publicada pelo “Dezenove de Dezembro”, e “Xisto numa república de estudantes”. “O citado drama pode ser considerado a primeira peça publicada no Paraná” O Dicionário apresenta ainda um resumo do enredo (v. anexo) de “Os milagres de Nossa Senhora do Pilar (p.197-198), que, ao contrário do que poderia parecer, não é um drama ocorrido em Antonina, que é apenas referida de passagem, assim como sua padroeira. A peça, na realidade, “é estruturada para atender ao gosto de um público acostumado com a estrutura folhetinesca, e, portanto, acostumado a ver na peripécia o elemento central de seu interesse, em detrimento de maiores preocupações com a verossimilhança.”

-opinião de Rocha Pombo sobre Teófilo: “bela vocação literária, desviada para a política. Escreveu alguns dramas, representados com sucesso em teatros do Paraná” (in “História do Paraná”. Companhia Melhoramentos de São Paulo, s/d- 2a. ed., p. 94)

-1884- segundo ainda M.T.B.Lacerda, “Os Milagres de N.S.do Pilar ou A Vingança de Badichô foi levada em Antonina em março de 1884, com Soares Gomes como ator. ‘Scenas completamente arrebatadadoras, de mutações e apotheoses maravilhosas’ impressionaram, vivamente os espectadores. Esta peça iniciou longa carreira através dos palcos paranaenses. A Sociedade Dramática Particular, dirigida por Gustavo Pinheiro, encenou Os milagres de N.S. do Pilar, no Teatro São Teodoro, em junho de 1889.” (“Subsídos ..., op. cit., p. 67). Teatro São Teodoro é o antigo nome do Teatro Guaíra (p. 52). Segundo a autora, Os milagres de N.S.do Pilar arrepiaram e suspenderam ‘de comoção o auditório’ que lotava o teatro.”

-1888- no nº 3 da “Gazeta Ilustrada”, datada de 10 de dezembro, consta artigo de TSG sobre Figueras, proprietário da Litografia do Comércio, situada na rua do Riachuelo, 29, em Curitiba, que editava a revista. Teófilo revela aí as suas convicções contrárias ao espiritismo do amigo, além de salientar a importância da empresa desse catalão. TSG é mencionado em vários números da revista. O nº 4, de 20 de dezembro, publica inclusive matéria especial sobre o Engenho Central de Arroz de Antonina, com gravuras não só do engenho mas também de seu proprietário

-segundo Francisco Negrão, Teófilo foi “Administrador da Mesa de Rendas de Antonina no último quartel do Império, e no regime republicano foi ali Prefeito Municipal.” (“Genealogia Paranaense”, vol. 3, Curitiba: Impressora Paranaense, 1928, p. 82-83)

1889- em 15 de novembro é proclamada a República pelo Marechal Deodoro da Fonseca- (mencionar o que ocorre no PR: Jesuíno Marcondes deixa a presidência da Província, passa o governo para ...., como fica a situação política local, como se alinham os liberais e conservadores)

-depoimento de Ermelino de Leão no “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná”, vol. II, p.832-833, verbete “Comendador Henrique Alves de Araújo” (sogro de TSG):
“O Coronel Henrique Alves de Araújo, depois de proclamada a República, retirou-se para S.Paulo em companhia do Conselheiro Jesuíno Marcondes e do seu genro Cel. Teófilo Soares Gomes. Aí, na época do encilhamento, jogando na Bolsa, adquiriu avultada fortuna invertida em títulos de companhias e empresas, como os seus parentes citados.
Recordo-me que o Conselheiro Marcondes, pressentindo a proximidade do “crac”, resolveu converter em dinheiro e em ouro todos os seus títulos e retirar-se, com a família, para a Suíça. Muito insistiu ele com o Comdor. Henrique e com o Cel. Teófilo Soares Gomes para que o imitassem. A voragem da Bolsa havia, porém, atraído os dois amigos e parentes com a miragem de fabulosas riquezas: ambos ficaram em S. Paulo. Pouco depois a previsão do Conselheiro Jesuíno se tornava realidade: os títulos da bolsa caíam vertiginosamente /.../.
O Comendador Henrique Alves de Araújo voltou para o Paraná, dedicando-se novamente à indústria pastoril, falecendo em Curitiba, há uns 12 anos mais ou menos.”

-1891- em 19 de abril, TSG é eleito deputado ao Congresso Legislativo do Paraná (“Galeria Paranaense”, p. 71). Segundo a “História do Paraná” (Grafipar), as eleições são realizadas em 10 de abril de 1891, e não no dia 19. Os dados a seguir baseiam-se principalmente na “História Política da Assembléia Legislativa do Paraná” de Samuel Guimarães da Costa, vol. I, Curitiba, Assembléia Legislativa, 1995: nas eleições antes mencionadas, Generoso Marques dos Santos é eleito presidente do Estado e J.I. Silveira da Mota, vice-presidente. Conforme Decreto do Marechal Deodoro, o novo Congresso estadual, composto por 32 deputados, também tem função constituinte. Assim, promulga a Constituição paranaense em 4 de julho de 1891. O Coronel TSG é o 3º vice-presidente desse “Congresso Constituinte e Legislativo”, cujo presidente é o Dr. João de Menezes Dória.

-no período pré-eleitoral, o “Diário do Comércio” de Curitiba, ano 1, nº 42, edição de 21 de fevereiro de 1891 (e em outras edições) publica o texto “Ao eleitorado do estado do Paraná” em que alguns políticos importantes como Generoso Marques dos Santos, General Francisco José Cardoso Júnior, Barão de Guaraúna e outros recomendam a chapa da “União Republicana” que contém candidatos a deputado nas próximas eleições para o Congresso do Paraná a realizar-se em 10 de abril. Dentre os nomes arrolados de candidatos consta o de TSG, “negociante, residente em Antonina”, e o de Joaquim Soares Gomes, “negociante, residente em Paranaguá”. Nessa edição, o jornal, que é propriedade da Companhia Impressora Paranaense e tem como redator Leôncio Correia, critica Vicente Machado, de “A República”, por atacar o General governador do Estado. Mas o jornal também publica outra chapa, a do Partido Republicano, recomendada por Ubaldino do Amaral Fontoura, Santos Andrade, Barão do Serro Azul, Vicente Machado etc

-1891- no “Diário do Comércio” de 31 de março consta uma nota em que os signatários, intitulados “Alguns sócios”, criticam o presidente do Club Curitibano, “o grande partido da Ordem”, por permitir reuniões (políticas?) no salão principal do Club. Como um dos participantes destas é citado Bernardo Soares Gomes. Por outro lado, na mesma edição do “Diário do Comércio” consta o nome de Antônio Soares Gomes, nos “Ineditoriais” do jornal, como procurador de João Fernandes dos Santos, estabelecido com engenho de erva-mate em Curitiba, que pede registro de marcas comerciais de seus produtos (“Carme”, “América” e “Mercedes”) na Inspetoria Comercial da Alfândega de Paranaguá. Aliás, também encontrei o nome de Antônio Soares Gomes citado no Almanak Laemmert para 1918 como um dos “capitalistas” de Antonina (v. adiante) e ainda no livro de Ermelino Agostinho de Leão (“Antonina- Factos e Homens”, p. 113) desse mesmo ano, como um dos moradores da cidade.

-1891- o “Diário do Comércio” de 25 de abril publica o resultado da votação para deputados ao Congresso (Legislativo estadual, realizadas em 10 de abril, acrescento eu) salientando que ainda falta a apuração de algumas seções do interior “que não alteram o resultado”. É apresentada uma lista de 36 nomes (nº de vagas do Congresso?) em ordem decrescente de votos. TSG situou-se em 30º lugar, com 6193 votos, e Joaquim Soares Gomes em 16º com 6254 (nessa lista, Generoso Marques situou-se em 4º lugar com 6438 votos, Telêmaco Borba em 20º com 6241, Menezes Dória em 28º com 6201. Após os 36 nomes, constam ainda outros candidatos e a votação que receberam. Vicente Machado aí incluído recebeu 4776 votos)

-1891- em 3 de novembro, Deodoro dissolve o Congresso Nacional. Quase todos os governadores dos estados apóiam o seu ato. Agrava-se a crise política. Em 23 de novembro Deodoro renuncia e o Marechal Floriano assume a presidência da República. Concorda com a deposição dos governadores que apoiaram o golpe de Deodoro. Generoso Marques é um deles. Conforme a “História Política da Assembléia Legislativa do Paraná”, vol. I, uma Junta Governativa assume o poder no Paraná e suspende os trabalhos da Assembléia Legislativa, que questiona sua autoridade para tanto, em um documento que lhe é encaminhado por 21 deputados presentes na sessão que tomou conhecimento dessa determinação (v. se TSG é um deles). Os parlamentares também divulgam um manifesto ao povo (v. jornais de 29 de novembro, data da deposição de Generoso). A Junta Governativa determina ainda a realização de novas eleições para a escolha do próximo governo e uma nova Assembléia Constituinte. São escolhidos então Francisco Xavier da Silva como governador e Vicente Machado como vice-governador.

1892- a Constituinte de 1892 é integrada por 28 membros. Dela não fez parte TSG nem seus correligionários do grupo de Generoso Marques (há uma predominância absoluta dos partidários de Vicente Machado). Todavia, um dos deputados eleitos é José Gonçalves de Moraes (1849-1909) de Morretes, poeta e tradutor (traduziu obras de Gauthier, Horácio e Virgílio), professor e comerciante (cf. “130 anos de vida parlamentar paranaense”, p. 153-154), da mesma família da mãe de TSG, Da. Maria Gonçalves de Moraes? (quais as relações entre TSG e JGM? Em política estavam em campos opostos, mas ambos se interessavam pela arte... os Soares Gomes canalizaram seus votos para ele nessa eleição? Foi nessa época que TSG se tornou prefeito de Antonina?)

.... – Teófilo, quando prefeito de Antonina, adquire imóvel para o teatro municipal, e promove sua restauração (“Subsídios..., op.cit., p. 54). Sebastião Paraná (“Galeria Paranaense”, p. 73) afirma que TSG dotou a cidade de Antonina “de luz elétrica e outros melhoramentos”

-1893- em março, é encenada, em Paranaguá, a peça “Gererê ou o Quilombo do Sargento”, elogiada numa coluna do jornal “O Commercio”: “Gererê é uma criação de mérito. Em todas as cenas há um interesse palpitante, vivo e luminoso. Seu autor, à par de muito talento artístico, revela um reconhecimento profundo e minucioso do jogo de cena. No drama há um entrechocar contínuo de grandes paixões. Gererê, o protagonista, é um escravo de caráter nobre, que a fatalidade envolve numa rede de circunstâncias tais que trazem em conseqüência graves injustiças e atrozes dores para o seu caráter límpido e para a sua alma casta. Teófilo Soares faz no decorrer das cenas a apoteose da honra e a estigmatização da iniqüidade e do crime. Os diálogos deslizam naturalmente, vívidos, animados, sem exagero de frases declamatórias. Melhor que todas as determinações que possamos fazer, dá idéia do vigor da peça a emoção que muitas vezes imprimia um frisson nervoso nos espectadores.” (apud “Galeria Paranaense”, p. 73)

1893- ano de publicação, em Curitiba, pela Companhia Tipográfica, da comédia em 1 ato (e 17 cenas) – “Xisto n’uma república de estudantes” (consta do acervo da Biblioteca Pública do Paraná). V. o resumo de seu enredo em anexo.

-1894- em 11 de janeiro uma parte da guarnição de Paranaguá se revolta “tentando um golpe para apossar-se da praça” (David Carneiro- “O Paraná e a revolução federalista”, 2a. ed., Curitiba, Secretaria de Estado da Cultura, 1982, p. 125)- os federalistas do Paraná insurgem-se, em movimento que precede o “forçamento da barra de Paranaguá pelos vapores da esquadra” do almirante Custódio José de Melo- nessa data, “os federalistas armados, acompanhados de alguns elementos da Guarda Nacional, e capitaneados por Teófilo Soares Gomes, que viera de Antonina e Narciso França, tentaram o golpe”- os revoltosos são bombardeados por 4 canhões Krupp- “Como tardassem em aparecer na barra os navios da esquadra, os insurretos esmoreceram,/.../. Foram presos 42 políticos e 68 guardas-nacionais.” (p.129-130). O General Pego Júnior, comandante do 5º Distrito Militar, quer fuzilar os principais chefes federalistas de Paranaguá, mas é contido por seu superior, Marechal Enéas, que só lhe autoriza tal procedimento “após conselho de guerra” (p. 130)

-posteriormente, a esquadra do almirante Custódio de Melo ameaça Paranaguá, e os federalistas desembarcam na cidade. Um dos focos de resistência é a cadeia, onde estão, além dos florianistas que resistem ao cerco, os presos políticos da tentativa de 11 de janeiro. Os federalistas fazem uma proposta, através do Tenente Lecocq. “Ela não trazia aos sitiados garantia de vida, mas foi enfim, aceita, porque o capitão Teófilo Soares Gomes empenhou sua palavra em como seriam todos considerados seus hóspedes, quer oficiais quer soldados.” (p. 139). E o autor prossegue dizendo que os combatentes se rendem, sendo respeitados pelos federalistas

-com a vitória federalista, Teófilo Soares Gomes é aclamado governador do Estado do Paraná pela Câmara de Paranaguá, cargo aceito por ele, que prestou a promessa legal. O livro de Túlio Vargas transcreve o texto de uma proclamação pública, assinada por TSG na condição de “governador provisório” (“A última viagem do Barão do Serro Azul”, p. 111-112) – na p. 123, consta que seu governo, em Paranaguá, se estendeu de 16 a 20 de janeiro de 1894, transferindo-o, já em Curitiba, ao dr. João Menezes Dória. Nessa mesma página, o autor arrola as pessoas nomeadas por Teófilo para diversos cargos públicos

-quando ocupam Curitiba, os federalistas decidem levantar recursos da comunidade. “Os verdadeiros chefes da revolução federalista não queriam assumir as responsabilidades das contribuições de guerra. Custódio de Melo, Menezes Dória e Soares Gomes decidiram que se ouvisse a respeito aquele que era, no momento, o chefe mais influente e mais temido, o general Gumercindo Saraiva.” (p.95)

-Vicente Machado, o governador em exercício, foge de Curitiba, deixando-a à mercê dos revoltosos. Transfere a capital para Castro. Assim ele conclui um telegrama ao marechal Floriano Peixoto, em 1º de fevereiro de 1894, dando conta da situação: “Sou informado que governo Paraná que não foi aceito por Serro Azul e está ocupado por Teophilo Soares Gomes indivíduo de poucos escrúpulos e de baixa condição social. Saúdo-vos. Aguardo ordens. Vicente Machado governador do Paraná.” (p.104). Nessa mesma página do livro de Túlio Vargas, é citada a relação dos membros de diversas comissões municipais destinadas a levantar fundos para os revoltosos. A de Antonina é integrada, dentre outros, por Teófilo

1894- em 21 de janeiro, TSG renuncia ao cargo de Governador Provisório e o transfere para o Dr. João de Menezes Dória (“História Biográfica...”, op. cit., p. 121)

-quando os partidários de Floriano retomam o poder, houve uma perseguição brutal exercida sobre os federalistas. Uns foram executados. “Outros tiveram que se exilar nos países do Prata logo que a derrota dos federalistas se tornou inevitável, como é o caso de Generoso Marques dos Santos, João de Menezes Dória, Teófilo Soares Gomes e outros. Alguns dos chamados maragatos eram homens realmente de temperamento exaltado, mas indispensáveis em movimentos políticos que atentam contra a ordem pública – um princípio mencionado por Joaquim Nabuco, segundo o qual ‘sem os exaltados não é possível fazer as revoluções, mas com eles é impossível governar’ --, de que foram exemplos mais conhecidos os acima mencionados Menezes Dória e Soares Gomes. Nem por isso deixavam de ser criaturas admiráveis, cuja memória deve ser respeitada.” (Samuel Guimarães da Costa—“História Política da Assembléia Legislativa do Paraná”, Curitiba: Assembléia Legislativa, 1994- vol. I, p. 219)

-o livro de Rocha Pombo “Para a história”- Notas sobre a invasão federalista no Estado do Paraná (Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1980) contém informações detalhadas sobre os acontecimentos ocorridos em Paranaguá, e o papel desempenhado por TSG naquela conjuntura, como o líder do movimento na região. Relata as condições sórdidas da cadeia onde os revolucionários estiveram presos e a iminência de seu fuzilamento. Só não foram fuzilados porque chega a esquadra comandada pelo almirante Custódio de Melo, que deixa os federalistas senhores da situação política (tomam além de Paranaguá também Morretes e Antonina). O livro inclui observações do próprio Teófilo, em acréscimo às citações da obra “O drama do Paraná”, do coronel Jacques Ourique. Após ser aclamado governador provisório, ele se esforçou por evitar perseguições políticas e procurou tratar condignamente os adversários vencidos. Em 20 de janeiro de 1894, seguiu para Curitiba com o almirante Melo, “onde fomos recebidos com os mais estrepitosos e entusiásticos festejos e sincera satisfação pública.” (p.131) Na capital, ele transfere o cargo de governador a Menezes Dória
(“Para a história”, op. cit., p.36 e p.121-132)

-1894- o livro “Generoso Marques” (Curitiba: Impressora Paranaense, 1941), de Enéas Marques, afirma à p. 49, que o biografado, após a derrota dos federalistas, partiu para o exílio, “rumo a Buenos Aires, embarcando em Paranaguá, no vapor de carga de nacionalidade argentina, “Henrique Barroso”, na manhã de 26 de março de 1894. Entre outros, seguiram igual destino no velho barco /.../ Teófilo Soares Gomes /.../” (o autor arrola mais 14 nomes, inclusive Luiz Murat e Guimarães Passos). A esses, seguiram-se outros. Moravam em “repúblicas”, e as despesas ficavam a cargo dos primeiros, em melhores condições econômicas

-1895- “Em Fevereiro de 1895 eram concluídos em Curitiba processos, perante a justiça federal, por delitos políticos, capitulados no art. 115 do Código Penal, decorrentes da revolução federalista, contra os seguintes cidadãos, que foram pronunciados: J. Menezes Doria, Teófilo S. Gomes /..../“ (seguem-se mais 30 nomes, dentre os quais constam os de Luiz Murat, Nestor de Castro, Jaime Balão, Guimarães Passos, José Cleto da Silva). Todos os acusados que se apresentaram foram presos e submetidos a julgamento pelo júri, que os absolveu. Os demais aguardaram a anistia. Esta só foi concedida pelo Dec. nº 310, de 21 de Outubro de 1895” (“Generoso Marques”, op. cit., p.51-52)

1899- Teófilo reside em Antonina mas, ao aproximar-se a data das eleições para presidente da república (1º de março), desloca-se a Paranaguá a fim de acompanhar de perto as eleições nessa cidade. O Partido Republicano Paranaense, liderado por Generoso Marques dos Santos – ao qual se vincula TSG -- apóia o candidato Campos Sales enquanto o Partido Republicano Federal de Vicente Machado apóia Lauro Sodré. Uma crônica do amigo Alberico Figueira, citada abaixo, é bastante reveladora do perfil psicológico de Teófilo e de sua vocação para a arte dramática. Ela narra uma história cômica em que TSG é o protagonista. Ele usa de um artifício para que o seu candidato ganhe as eleições em Paranaguá. Vendo que a tendência das eleições nessa cidade favorecia o candidato adversário, e sabendo que o cruzador “República” -- um dos que integraram a esquadra do contra-almirante Custódio de Melo no ataque federalista de 1894 -- estava ancorado no porto, e que o comandante do cruzador “tivera uma forte discussão” com o Coronel Manuel Bonifácio Carneiro, TSG concebeu um plano para mudar o resultado previsto das eleições. Mandou alguém comprar potentes foguetes e enterrá-los na areia junto à baía, os quais, ao explodirem, produziam um “estampido ensurdecedor”. Ao mesmo tempo, TSG e o Coronel José Lobo “batiam apressadamente às residências dos chefes políticos pica-paus, prevenindo-os dos ‘perigos que corriam’ com o desembarque de forças da Marinha que o comandante do ‘República’ estava realizando, naturalmente por ordem superior, e que essa atitude se prendia às eleições que se iam realizar.”
O artifício surte efeito, os políticos que apoiavam Lauro Sodré saem da cidade e o Coronel Bonifácio Carneiro chega a comprar passagem num vapor argentino e “transportar-se para Buenos Aires”. Mais tarde, após a apuração das eleições em Paranaguá, “o Coronel Teófilo Soares, todo lampeiro, atravessava as ruas da cidade, distribuindo sorrisos e deixando desprender dos lábios o fumo de seu charuto havana, depois de ter telegrafado ao Dr. Generoso Marques: ‘Vencemos em toda linha. Viva Campos Sales!’” (“Paranaguá do Passado (Truques de Politicagem...)”-p.104-106 in “Coisas Nossas”, 1º vol., Paranaguá, Prefeitura Municipal, 1966)

1900- em julho Teófilo recebe o grau 30, conferido pelo Grande Oriente do Brasil – em 20 de outubro, recebe o diploma de Membro Honorário do Ateneu, de Valparaíso ( “Galeria Paranaense”, p . 71)

-1903- em 24 de agosto, é eleito pela segunda vez deputado estadual (Gal. Paranaense, p. 71)

-1904-1905 –deputado estadual (cf. Maria Nicolas- “130 Anos de Vida Parlamentar Paranaense”, Curitiba, 1984, p. 265 e 530). Conforme os “Anais do Congresso Legislativo do Paraná” (disponíveis na Biblioteca Pública do Paraná), TSG foi, nesse biênio, 2º vice-presidente do Congresso Legislativo. Foi simultaneamente membro da Comissão Permanente de Comércio em 1904 (1a. Sessão da 7a Legislatura) e da Comissão Permanente de Comércio, Agricultura e Indústria em 1905 (2a. Sessão da 7a. Legislatura)

-1907- nesse ano (apenas nele) é deputado à Assembléia Legislativa do Estado; em 24 de julho, é nomeado chefe da Comissão de Colonização do Paraná

-segundo a “História Biográfica da República no Paraná”, p. 120, TSG foi comandante superior da Guarda Nacional de Antonina e Delegado do Ministério da Guerra para a organização do exército de segunda linha

-em 1918, conforme o Almanak Laemmert para esse ano, publicado no Rio de Janeiro, contendo informações sobre todos os Estados da Federação, TSG era o titular (“Inspetor”) da Inspetoria Geral de Rendas da Secretaria da Fazenda, Agricultura e Obras Públicas, que estava situada à rua Marechal Floriano, 129. O Secretário, na época, era Caetano Munhoz da Rocha, também vice-presidente do Estado (o presidente era Afonso Camargo), e o Diretor Geral, Alcides Munhoz. Integravam essa Secretaria de Estado a Tesouraria, a Inspetoria Geral de Rendas e a Inspetoria Agrícola, cujo sub-inspetor era Adolar Hengreville Hintz (genro de TSG). O mesmo Almanack, na seção relativa a Antonina, cita Heitor Soares Gomes dentre os “Agricultores e Lavradores” e Antônio Soares Gomes dentre os “Capitalistas”. Heitor Soares Gomes também é citado como Prefeito de Antonina. Os órgãos do Governo do Estado destacados pelo Almanak Laemmert são, além da Secretaria da Fazenda, Agricultura e Obras Públicas mencionada acima, a Secretaria do Interior, Justiça e Instrução Pública, o Corpo de Bombeiros (situado à rua Cândido Lopes) cujo Assistente do Comandante (ten-cel Benjamim Lage) era o cap. Sílvio van Erven, a Diretoria de Obras e Viação e a Junta Comercial

-em 1922 (conforme “Galeria Paranaense”, p. 73) é comandante e chefe da Delegacia do Exército de Segunda Linha no Paraná; nesse ano exerce também o cargo de Inspetor Geral das Rendas do Estado e Fiscal do Governo junto ao Banco de Curitiba

-segundo o vol. 3 da “Genealogia Paranaense” de Francisco Negrão, publicado em Curitiba pela Impressora Paranaense em 1928, TSG exerceu, além dos cargos de Administrador da Mesa de Rendas de Antonina e de Prefeito deste município, “outros cargos públicos de importância, entre os quais o de Chefe da fiscalização da arrecadação geral do Estado, em cujo cargo se acha aposentado. Foi Deputado à Assembléia Legislativa do Paraná em diversas legislaturas. Foi Comandante Superior da Guarda Nacional do Paraná e Delegado do Ministério da Guerra, por ocasião da organização do Exército da 2a. Linha”.(p.82-83)


1924-1925 -deputado estadual; membro da Comissão Permanente da Fazenda em 1924 (“130 Anos...”, op. cit., p. 373 e 376); TSG passa a ser eleito a partir de agora para várias biênios, em substituição a seu filho, Heitor Soares Gomes (1888-1942), engenheiro civil e prof. na UFPR, que fora deputado estadual nos biênios 1918-1919, 1920-1921 e 1922-1923, além de prefeito de Antonina em 1916-1924 e de 1926 a 1930, conforme a mesma fonte

1926-1927 –deputado estadual; Presidente da Assembléia Legislativa (op cit., p.381-382)

1928-1929 -deputado estadual; membro da Comissão Permanente da Fazenda (op. cit., p.389-390)

1930-1931 –deputado estadual (op. cit., p.393)

-afirma Samuel Guimarães da Costa, após referir-se às eleições ocorridas em 1929: “para a legislatura do biênio 1930-1931, que não se completou devido à Revolução de outubro de 1930, metade do Congresso Legislativo /.../ era constituída de deputados veteranos, não poucos deles com vários mandatos”. O autor cita, dentre outros, TSG, que já exercera quatro mandatos (“História Política...”, op. cit., vol. I, p. 310)

-1935- em 26 de abril falece em Curitiba o velho maragato, aos 81 anos (“História Biográfica...”, op. cit., p. 120). O “Diário da Tarde” de Curitiba, em 29 de abril, noticia o falecimento “na manhã de ontem” (isto é, em 28 de abril) “do ilustre paranaense Cel. Teófilo Soares Gomes, figura de relevo na política estadual e elemento de prestígio nas hostes do PRP, onde militou por vários anos, conquistando, pelo modo distinto de tratar, as simpatias dos seus conterrâneos e correligionários. /.../ Na política de Antonina, onde era chefe estimado e respeitado, exerceu as funções de Prefeito Municipal, em diversas legislaturas, deixando naquela cidade rastos luminosos da sua passagem como administrador. /.../ ”

- a matéria do jornal “Diário da Tarde” citada acima informa ainda que Teófilo faleceu com 82 anos de idade, e que era casado com a sra. Maria Araújo Soares Gomes, “recentemente falecida”, deixando “dois filhos, dr. Heitor Soares Gomes, residente em Antonina, e d.Sara Soares Hintz, casada com o dr. Hengreville Hintz, e três netos, Douglas Soares Hintz, casado com d. Zilda Carvalho Hintz, e Milton e Rosinha, solteiros.” (Francisco Negrão, na obra citada acima, refere-se ao marido de Sara, mencionado como Adolar de Hegreville Hintz, e aos filhos deles Douglas, Milton e Maria Rosa)

-nos “Anais da Assembléia Constituinte do Paraná” de 1935 (vol. 3, p. 122-124) consta menção ao voto de pesar proposto, na sessão de 29 de abril de 1935, pelo deputado “pessedista” Caio Machado pelo falecimento do ex-presidente do Congresso Legislativo TSG, cuja terra natal era Antonina; o deputado Lindolfo Pessoa, da União Republicana, também se manifesta a favor do voto de pesar assim como o deputado Gomes Pereira

***

-Hélio Silva sobre a Revolução Federalista: foi “uma epopéia, rastreando de fogo o pampa gaúcho; bela e gloriosa nas cargas dos lanceiros e torpe e cruel na degola dos vencidos, no estupro das mulheres, no saque das estâncias.” (“História da República Brasileira”, vol.I , São Paulo: Ed. Três, 1975, p.107)


Theophilo Soares Gomes
(foto extraída de "História Política da Assembleia Legislativa do Paraná" por Samuel Guimarães da Costa- v.I.
Curitiba: Assembleia Legislativa, 1995- p. 284)  


PEÇAS DE TEATRO DE THEOPHILO SOARES GOMES


“OS MILAGRES DE NOSSA SENHORA DO PILAR ou A VINGANÇA DE BADICHÔ”

(Resumo da peça- conforme a cópia da edição manuscrita feita por Romualdo Figueiredo, em Lorena-SP, junho de 1914, disponível no acervo da Biblioteca Pública do Paraná)

A peça abrange:
-Prólogo- 12 cenas- passa-se em 1804
-1º Ato- 10 cenas- passa-se em 1824, assim como os Atos seguintes
-2º Ato- 13 cenas
-3º Ato- 12 cenas

“Decoração”:
-Prólogo- no interior da casa de Lobo do Mar
-1º Ato- bosque cerrado e escuro até o meio da cena; à esquerda, casa de Lobo do Mar, ao fundo o mar, um bote junto à rampa, à direita, um pilar de tijolos
-2º Ato- salão ricamente mobiliado em casa do Conde Artoff
-3º Ato- subterrâneos do castelo do Conde Artoff

Títulos dos quadros:
1º Dez léguas a pé
2º O rapto com o Diabo ao leme
3º O Duelo
4º A pipa do Diabo
5º O livro de orações
6º A punhalada infernal
7º A explosão
8º O arrependimento salva

Resumo do enredo:

Prólogo-
Estamos em 1804. O Lobo do Mar chega de viagem, depois de um ano, e encontra a esposa, Clemência, com sua filha no colo, Branca, que já tem 4 meses. Lobo do Mar, pai depois de 11 anos de casado, fica muito contente com o nascimento dela. Alberto de Kennes, amigo deles, está lá, de visita. Afirma que sua irmã Jenny, casada com o Conde Artoff, continua sendo maltratada pelo marido (Clemência foi criada pela mãe de Alberto, a Condessa de Kennes, que mora em Nantes. A peça se passa nas costas da Bretanha). Zé do Arpão, que é da tripulação do Lobo do Mar, chega depois. Na conversação que mantêm, é mencionado seu filho, o garoto Luciano, que trabalha com ele (Zé do Arpão é viúvo). Ele cobra dos pais de Branca a promessa de que Luciano deverá casar-se com a filha de Lobo do Mar. Na conversa, Lobo do Mar conta que demorou para voltar porque uma vez, navegando nas costas do Brasil, foi obrigado a entrar na baía de Paranaguá. Lá teve oportunidade de visitar a vila de Nossa Senhora do Pilar, onde lhe falaram sobre os milagres desta. Ele faz o elogio dessa vila (“bela vila”) e de seu povo (“boa gente”) (p.9). Os amigos festejam o nascimento de Branca: bebem vinho e fazem música. O Prólogo conclui com a entrada de Alberto, com uma criança nos braços. Ele a traz para o casal Clemência-Lobo do Mar, pois a mãe da criança não vive mais.

1º Ato-
A ação transcorre vinte anos depois, em 1824. O Diabo e o Conde Artoff caminham num bosque, em direção à casa do Lobo do Mar. Descansam depois de dez léguas (cf. título do 1º quadro). O Conde fez um pacto com o Diabo: deu a sua alma em troca de possuir Branca, a filha do Lobo do Mar. O Diabo lhe dará também glórias e riqueza (p.27). Zé do Arpão conversa com Jacques sobre a pesca da baleia enquanto o 1º Pescador comenta que o tenente (da armada) Luciano, filho de Zé do Arpão, vai casar-se naquele dia com Branca. Os dois vão morar numa casa que o tenente comprou, nos arredores de S. Nazaire. O Lobo do Mar viverá de rendimentos e um dos pescadores vai dirigir a barca de pesca. Doravante, os pescadores terão “meio quinhão no produto da pesca” (p. 31). Clima de festa (agora por causa das bodas), música. Enquanto o Conde entra cauteloso na casa de Lobo do Mar, o Diabo, “embuçado numa capa”, pergunta pelo Lobo do Mar, pois deseja passar, de barco, para o outro lado da baía). Lobo ordena que dois de seus homens o levem no bote. O Diabo diz que não é preciso, ele sozinho manobrará o bote. Lobo adverte-o que isso é perigoso, dadas as condições climáticas. Mas ele insiste e segue em frente, antes pedindo para todos fecharem os olhos e só abrirem depois, quando ele estiver no barco, ao seu sinal. Todos o obedecem, “como impelidos por uma força sobrenatural” (antes, o Conde sai com Branca nos braços, desfalecida pelo poder do Diabo, e embarcando num escaler). Mais tarde, percebem que foram logrados, que o Conde Artoff e seu cúmplice estão raptando a filha do Lobo do Mar. O Diabo vai ao leme (p. 36) (cf. título do 2º quadro). Luciano chega, ouvindo o barulho dos que estão ali. Todos decidem persegui-los. As embarcações estão à deriva, só resta a baleeira. Lobo vai buscá-la a nado. Todos se preparam em terra, armando-se para quando ele voltar. São liderados pelo tenente Luciano. O Conde tem um castelo do outro lado da baía. Luciano conhece uma entrada para o subterrâneo do Castelo. Quando Zé do Arpão fala “Com mil diabos”, o Diabo aparece perguntando – “Que me queres?” (esse tipo de evento ocorre várias vezes na peça, em outras situações). Luciano vai duelar com o Diabo (cf. título do 3º quadro) (antes afirmara querer duelar com o Conde Artoff, que lhe raptou a noiva no dia de seu casamento). Mas Zé não permite isso. Quando invoca N. Sra. do Pilar, de quem é devoto, o pilar transforma-se num ramalhete onde aparece o Anjo. O Diabo desaparece. A cidade do Lobo do Mar chama-se Poliguen (p. 34).

2º Ato-
Na casa do Conde Artoff, Branca está presa já há dois dias. Lamenta a sua sorte e resiste aos apelos do Conde para que ela seja dele. Ele lhe dará “posição, riqueza, prazeres e faustos” (p. 47). Diz que é poderoso, é o chefe supremo de uma sociedade secreta. Como demonstração de seu poder, dá três pancadas com o pé. No mesmo instante, abre-se um alçapão e dele sai um grupo de crianças armadas de punhais. Hércules pergunta—“O que ordenais, Chefe Supremo?” (p. 48). Ele, junto com os “conjurados” (= o grupo de crianças armadas), após declarar submissão absoluta à vontade do chefe, retorna aos “subterrâneos” do Castelo. O Conde vai encerrar Branca nesses subterrâneos. Se ela não mudar de idéia a respeito dele, será morta. Ela o chama de cobarde (porque ele ameaça uma mulher), diz que seu pai, o Lobo do Mar, lhe daria uma lição. O Lobo espreita pela janela. Depois da discussão, o Conde decide matá-la. O Lobo salta pela janela e desarma o Conde. Antes de levá-la, Lobo diz algumas palavras para o “birbante” (= patife), dentre as quais estas: “/.../ não ande a querer desonrar esta menina, simplesmente porque é filha d’um pescador... Sim, de um pescador sem títulos nem instrução, mas que tem um coração mais nobre que o seu, e um procedimento que vale mais do que toda a sua fidalguia.” (p. 51). Bate com os pés no assoalho mas ninguém vem, esquecido de que mudara o sinal combinado. Lobo e a filha saem. Depois, aparece Hercules. O Conde manda-o dizer aos outros para prender Lobo e Branca e conduzi-los ao “grande subterrâneo”. O criado José e o Mordomo (=o Diabo) estão na sala principal do Castelo. O Mordomo pede água, José vai buscar. O Diabo lhe diz que há ali perto uma pipa (cf. título do 4º quadro). José só vê de início uma cadeira, que cai de costas quando ele põe o dedo na pipa e diz que a água está fervendo (depois a cadeira volta a estar de pé). O Diabo desaparece, José sai, assustado. Surge o Conde e diz que recuperou Branca. Houve luta, Lobo está ferido, Luciano lutou bravamente mas seus companheiros recuaram ante a presença de Lúcifer, que fugiu com Branca entre os braços. Branca é encerrada no subterrâneo sob os cuidados de Hércules. Ali há víveres, pólvora e balas. O Conde sozinho (sem o Diabo) tem “cruéis pressentimentos”. Abandonou a mulher horas antes dela dar a luz. Procurou depois a sua filha, mas não conseguiu encontrá-la. Tem remorso por haver vendido a sua alma. Vê o chão abrir-se a seus pés, e os “semblantes lívidos” dos que caíram debaixo do seu punhal. Ele tem medo, chama por Satanás, que o deixou só. Há um rumor, e Luciano entra na sala do Conde. Chama-o para o duelo, que o Conde aceita. Bate três vezes com o pé no assoalho. Chegam Hércules e conjurados, saindo do alçapão. Mas nem o Diabo (que está presente) nem os conjurados não conseguem fazer nada contra Luciano, porque sobre a mesa está o livro de orações de Branca. É o “livro de orações da Santíssima Senhora do Pilar” (cf. título do 5º quadro, p.61). Luciano mostra o livro para eles. Os punhais dos conjurados se transformam em leques, uma estante transforma-se em pedestal onde aparece o Anjo, que manda abrir-se o Inferno, para onde vai o Diabo.

3º Ato-
A ação passa-se nos subterrâneos do Castelo. Hércules diz a John que o tenente Luciano avança com trezentos homens para atacar o subterrâneo (ele conhece as entradas do subterrâneo). Surge Badichô, o louco. Traz uns papéis escritos, que entrega a Branca. Esta lê as “Memórias de Badichô”. Há vinte anos ele vive ali, prisioneiro. Sofrendo torturas. O culpado disso é o Conde, que abandonou sua mulher, Jenny, irmã de Badichô. Ela morreu no dia em que deu à luz uma menina. Ele a levou para um casal amigo, para que a esposa a amamentasse (Jenny escondeu do marido o nascimento da filha para que ela não ficasse sob seu poder, pois a vida dele era cheia de crimes e devassidões). Depois, Badichô sai. E também Branca, quando ouve passos. Entra Hércules. Está com o Diabo. Este pede para que ele dê uma punhalada no seu ventre pois está com cócegas. Após hesitar um pouco, Hércules atende ao seu pedido (o Diabo não sente dor nenhuma) (cf. título do quadro nº 6). Mais tarde, Hércules diz a Branca que Badichô, ou Alberto de Kennes, cunhado do chefe, ficará ali eternamente (subentende-se que ele tenha sido muito torturado para dizer o paradeiro da filha do Conde, o que não conseguiram descobrir). Antes afirmou-se que o Conde foi atrás de Alberto, quando este voltou de Nantes, onde foi avistar-se com sua mãe. Em vez de duelar como um nobre, o Conde mandou seus subordinados o aprisionarem e o levarem para aquele lugar. Lobo do Mar e tenente Luciano se aproximam com seus homens. Trava-se um combate. Vozes fora dão vivas ao tenente e ao Lobo do Mar, vitoriosos. Eles vencem por causa da cruz que Zé do Arpão traz sobre o peito. Confraternizam-se (Branca com Luciano, Lobo do Mar etc). Badichô recupera a razão. Ele revela ao Conde que Branca é na realidade sua filha. Lobo do Mar também revela que a primeira Branca morreu, e ele deu o mesmo nome à filha adotiva (esta tem um sinal no braço, que Badichô antes verificou). Branca perdoa o Conde, que se arrepende. Pede para que sua filha (“este anjo”) seja levada dali. Ele deve ficar lá, “preso de mil torturas”. Saem todos, exceto Hércules, o Conde Artoff e Badichô. Este, que havia aberto antes o alçapão que dá para o paiol de pólvora, dá um tiro de pistola no paiol e provoca uma explosão (cf. título do quadro nº 7) que faz desaparecer o subterrâneo. Só se vêem no final as sepulturas que trazem o nome dos três acima. Na última cena, em que aparecem o Anjo e o Diabo, o Anjo diz que o arrependimento absolveu o Conde (cf. título do quadro nº 8, p. 81). Rompe-se o pano do céu, ao fundo, e vê-se um altar onde está N.Sra. do Pilar. Ajoelhados estão Luciano e Branca. Lobo do Mar e Zé do Arpão assistem ao seu casamento.


"XISTO NUMA REPÚBLICA DE ESTUDANTES"

Xisto é um simplório criador de gado em Guarapuava que chega, no terceiro dia de carnaval numa república de estudantes paranaenses em São Paulo à procura de seu sobrinho “nhô Quim”. Este não está ali, pois foi passar uns dias com uns amigos em Piracicaba. Os estudantes, contudo, não deixam Xisto ir embora. Embora sem dinheiro, encomendam uma lauta ceia, regada a “champagne”, para recebê-lo, no restaurante Terraço Paulista, localizado no largo de S. Bento. Usando de um artifício (quem ia pagar esqueceu a carteira) e da bela Pepita, uma bela espanhola por quem Xisto “fica caidinho”, este acaba dando o dinheiro (190 mil réis) para pagar aquela refeição. Quando todos estão no restaurante, Atanásia, a esposa de Xisto, que ficara em Sorocaba para visitar a irmã, chega à república e só encontra nela o moleque José, o qual lhe diz que Xisto está se divertindo com Pepita no restaurante. Irritada, Atanásia vai atrás dele. Na cena seguinte, todos já voltaram do restaurante, e o ingênuo Xisto está assustado porque deverá bater-se em duelo com um dos estudantes, Afonso, pois ambos disputam o amor de Pepita. Alguém traz pistolas (com pólvora seca) e na troca de tiros, Afonso cai fingindo-se de morto. Xisto pensa que o matou. Para enganar a polícia, resolvem alugar fantasias e disfarçados jogar o cadáver no rio Tietê, aproveitando a agitação carnavalesca. Na realidade os estudantes não tinham dinheiro para ir ao baile “masquê” de carnaval e usando esse pretexto conseguem arrancar mais 300 mil réis de Xisto. Na seqüência, com a “ressurreição” do defunto, que foge junto com os outros chamando Xisto de “paio” (=tolo), Xisto percebe o que aconteceu e entra na festa. Chama José para lhe ajudar a alugar fantasias. Xisto se veste de princês e José de Mefistófeles. Quando Xisto está fazendo a corte a Pepita no baile masquê, entra Atanásia, que o leva embora aos empurrões. Na última cena, todos estão dançando can-can no baile. José com a voz fina convida Janguinho, outro estudante, para dançar. Mas é desmascarado, e xingado. Xisto entra correndo e passa o braço em Pepita. Atanásia o persegue, mas não consegue alcançá-lo. José a toma pela cintura.
Como se vê, essa comédia explora a ingenuidade do fazendeiro simplório, Xisto, vítima de estudantes sem dinheiro que querem se divertir no carnaval financiados por ele, o que conseguem.
Trata-se de uma peça com algumas situações engraçadas (o moleque José complicando a vida de Xisto pelo que diz à esposa deste, Xisto cortejando Pepita e chamando Astanasia de “canhão” no momento em que esta chega e ouve o que ele diz etc). Mas de modo geral a peça deixa a desejar como comédia, e seu tema não é muito original. Porém, como documento de época é interessante, pois mostra como era festejado o carnaval antigamente e também como era a vida de estudantes fora de casa, num tempo em que as faculdades no Brasil eram poucas e localizadas apenas em alguns centros maiores, para onde iam os filhos das classes mais abastadas do interior do país.
Em termos de inventividade, “Os Milagres de Nossa Senhora do Pilar” é superior a esta peça. São todavia peças de natureza diferente, uma “fantástica” e outra “realista”. Ambas se passam fora do Paraná, e se referem a ele indiretamente. Enquanto “Os Milagres...” é uma peça religiosa, “Xisto numa República de Estudantes” é leiga, e mesmo tolerante com o adultério, pois a simpatia do espectador volta-se mais para as relações de Xisto com Pepita do que com Atanásia. Quanto aos personagens desta peça leiga, destaca-se o de José, o moleque (que não gosta de ser chamado assim) altivo, não servil. Por outro lado, a peça mostra o caráter “democrático” do nosso carnaval, apesar da natureza acentuadamente elitista da sociedade de então.

"GERERÊ OU O QUILOMBO DO SARGENTO"

EM março de 1893 foi encenada, em Paranaguá, a peça “Gererê ou o Quilombo do Sargento”, assim elogiada numa coluna do jornal “O Commercio”:

“Gererê é uma criação de mérito. Em todas as cenas há um interesse palpitante, vivo e luminoso. Seu autor, à par de muito talento artístico, revela um reconhecimento profundo e minucioso do jogo de cena. No drama há um entrechocar contínuo de grandes paixões. Gererê, o protagonista, é um escravo de caráter nobre, que a fatalidade envolve numa rede de circunstâncias tais que trazem em conseqüência graves injustiças e atrozes dores para o seu caráter límpido e para a sua alma casta. Teófilo Soares faz no decorrer das cenas a apoteose da honra e a estigmatização da iniqüidade e do crime. Os diálogos deslizam naturalmente, vívidos, animados, sem exagero de frases declamatórias. Melhor que todas as determinações que possamos fazer, dá idéia do vigor da peça a emoção que muitas vezes imprimia um frisson nervoso nos espectadores.” (apud Sebastião Paraná- “Galeria Paranaense”, p. 73)


CRONOLOGIA BIOGRÁFICA DE MANOEL SOARES GOMES, PAI DE TEOFILO:
Manoel Soares Gomes

1829-  nasce em Portugal, na cidade do Porto, em 18 de agosto     
-filho de Bernardo Soares

.......     - vinda para o Brasil

            -o livro “O último capitão-mor”, de Samuel Guimarães da Costa, Curitiba:Editora da UFPR/Prefeitura de Paranaguá, 1988, transcreve depoimento do cronista Antônio Vieira dos Santos, nascido na cidade do Porto em 1784,  sobre a sua vinda ao Brasil, e que nos dá uma idéia do trajeto e do tempo decorrido na viagem, embora a vinda para cá de MSG tenha se verificado bem mais tarde:  “A 26 de maio de 1797, /.../, saí da casa de meus pais na cidade do Porto e embarquei em um bergantim que no dia seguinte saiu barra fora em direção a Lisboa, onde cheguei com 3 dias de viagem, a 30 desse mês. A 7 de agosto de 1797, /.../, saí da cidade de Lisboa com destino ao Rio de Janeiro, que depois de peripécias de longa viagem de 78 dias entrou à barra da baía de Guanabara, saltando em terra no dia 23 de outubro /.../” (p.4). Acrescenta Guimarães da Costa que Vieira dos Santos, então com 13 anos, empregou-se em casa comercial no Rio de Janeiro e em novembro do ano seguinte (1798) “embarcou na sumaca “Princezinha” /.../ com destino à Vila de Paranaguá, gastando 11 dias nessa viagem” (p.5). O itinerário de MSG e a atividade econômica a que se dedicou podem ter sido as mesmas, mas não o tipo de embarcação em que viajou (barco a vela), pois segundo C.M. Westphalen (in “Porto de Paranaguá, um sedutor”, p.50), desde 1839 já entravam  barcos a vapor na baía de Paranaguá, mais freqüentes, contudo, na segunda metade do século XIX . Guimarâes da Costa, apoiando-se ainda em Vieira dos Santos, afirma que Paranaguá, em 1850, contava com uma população de 7 mil habitantes (p.14). Por outro lado, na p. 28 de seu livro, constam estas observações que mostram não ser exceção o caso de Manoel Soares Gomes: “Os historiadores constataram que a maioria dos emigrantes portugueses para o Brasil vinham justamente de entre Minho e Douro.” E mais adiante: “É impressionante o número de minhotos entre os portugueses que se tornaram troncos de novas famílias de Paranaguá. Nos 30 títulos das famílias que compõem a “Genealogia” de Francisco Negrão, seguramente cerca de metade tem seus troncos originários em portugueses do extremo norte de Portugal.”    

.......     -casa-se com D.Maria Gonçalves Moraes, nascida em S. Francisco, na província de Santa Catarina, filha do Tenente Coronel Bento Gonçalves de Moraes Cordeiro

1854-  nasce Teófilo, filho do casal, em 16 de fevereiro, na vila de Antonina
            - o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 1º de julho, menciona Manoel Soares Gomes como uma das pessoas que auxiliam financeiramente as obras da matriz da vila de Antonina

1855- na edição de 13  de janeiro, o “Dezenove de Dezembro” publica anúncio sobre um negro fugitivo, pedindo que ele seja entregue na firma “Soares & Garcia”, em Curitiba, ou a Manoel Soares Gomes, residente em Antonina. Isso mostra a existência de um relacionamento entre Manoel e tal firma, que conforme anúncios no mesmo jornal (em 6/01/1855 e 17/01/1855) é um armazém “de secos, molhados e ferragens”, e está situado na rua da Carioca, 27, em Curitiba armazém (o armazém acaba de ser aberto) (obs: rua da Carioca é o antigo nome da rua Riachuelo dos nossos dias)
-em 8/08/1855, o mesmo jornal publica novo anúncio da casa de comércio  “Soares & Garcia”;
-também em  23/01/1856, chamando-a de “loja de molhados”;
-outro anúncio em 7/05/1856;
-em 27/08/1856, anúncio no jornal “Dezenove de Dezembro” refere-se à dissolução, em 22 de agosto daquele ano, da sociedade de “Soares & Garcias” (nome do sócio: Domingos Solis Garcias)

-1856- na edição de 30 de abril, o “Dezenove de Dezembro” publica anúncio de Manoel Soares Gomes, com casa de relojoaria e jóias em Paranaguá (rua da Ordem, 26); também faz consertos em relógios e caixas de música; outro anúncio no mesmo jornal em 2/07/1856

-1856- na edição de 27 de agosto, o “Dezenove de Dezembro” refere-se a Manoel Soares Gomes que vende sortimento de ouros, relógios de sala, de algibeira (de ouro e prata) e faz consertos em relógios e caixas de música (estabelecimento já em Curitiba, aparentemente)

...-        -falecimento de D. Maria Gonçalves Moraes Soares

-1857- o jornal “Dezenove de Dezembro” de 17/10/1857  noticia a entrada no porto de Paranaguá (período de 2 a 6 de outubro) do vapor “Conde d’Aquila” procedente de Santa Catarina. Dentre os passageiros são mencionados Adelaide Soares Gomes, o português Manoel Soares Gomes “e 1 escravo a entregar”; quando o vapor sai do porto de Paranaguá, eles não constam mais como passageiros desse navio, o que significaria que ficaram em terra 

1864-  casa-se em 2as. núpcias com D. Rita Adelaide Coutinho, no dia 20 de outubro, na cidade de Desterro, atual Florianópolis

1865- o jornal “Dezenove de Dezembro” de 14.01.1865, p. 4, na seção “Movimento do porto de Paranaguá”, registra a entrada, em 1º de janeiro, do vapor “Imperatriz”, vindo de Santa Catarina, trazendo como passageiro, dentre outros,  “o português Manoel Soares Gomes” 

1865- no “Diário de Dezembro” de 28.01.1865, p. 4, na seção “Movimento do porto de Paranaguá” consta o registro da saída para o Rio de Janeiro, no dia 17 de janeiro, do vapor “Imperatriz”. Entre os passageiros estão o português Manoel Soares Gomes e seu escravo Amâncio   

1866-  nasce sua filha Julieta em Santa Catarina

.......-    nasce seu filho Edmundo

1872-  nasce seu filho Franklin no Rio de Janeiro

1877- a edição do DD de 15 de setembro desse ano, p. 4, cita Manoel Soares Gomes como um dos passageiros do vapor “Rio Grande”, que aqui aportou procedente do Rio de Janeiro (“entrado do Rio de Janeiro”).

-Em “O Paranaense” nº 2, de 16.12.1877, p.4 (órgão do partido Conservador, redigido por Justiniano de Melo e Silva), consta este anúncio:
M.Soares Gomes e Comp. oferecem ao respeitável público da Província do Paraná uma grande e profusa coleção de artigos importados dos Estados Unidos para uso do comércio, indústria, lavoura, artes, ciências, economia doméstica etc, etc, que não podem ser aqui relatados pela sua infinita variedade, mas que poderão ser vistos em seu armazém em Curitiba”  

1878- no começo do ano, em 10 de janeiro, na p.4, “O Paranaense” publica este outro anúncio: 
“Manoel Soares Gomes e Comp.-- únicos agentes na Província do Paraná da Companhia Lidgerwood, fabricantes nos Estados Unidos e Inglaterra – tem sua casa na travessa da rua do Rosário, e vende baratíssimo máquinas e instrumentos agrícolas de todos os sistemas e formas que o progresso nos tem apresentado e artigos americanos, como sejam: cadeiras, mobílias, relógios, trolles, carrinhos, pianos, arados, debulhadores, querosene, farinha, lampeões e grande infinidade de objetos que seria longa a sua enumeração” 

1879- em 30 de janeiro, anúncio (em alemão) no jornal “Dezenove de Dezembro” dos vendedores de farinha de trigo Amazonas M. & Oliveira e M. Soares Gomes & Cia.

1879- no “Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província do Paraná para 1880” organizado por José Ferreira de Barros, Rio de Janeiro, 1879, p. 109, consta dentre os comerciantes (secção “Objetos Americanos”) o nome da firma “Soares Gomes & Cia”      

1880- MSG esteve presente na cerimônia de inauguração do novo edifício do Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, pois foi uma das 162 pessoas que assistiram o ato e assinaram a Ata respectiva, conforme Francisco Negrão (“Memória da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba”, Curitiba, 1932, p. 21). A relação de nomes, iniciada por D.Pedro II e sua comitiva, inclui também os de  João Alberto Munhoz e Bento Munhoz da Rocha.

1888- a “Gazeta Paranaense” publica, na edição de 12 de julho, correspondência enviada ao jornal por um grupo de 10 empresários (liderado pelo Barão do Serro Azul e integrado por Manoel Soares Gomes) que reivindica a criação de um banco para a Província do Paraná, projeto proposto por Frederico Perracini

1889- anúncio comercial na “Galeria Ilustrada” nº 15, de 10 de junho, de M.Soares Gomes, referido como “importador de máquinas a vapor, máquinas de costura, mobílias, instrumentos de lavoura e artigos de ferragem, louça, porcelanas, cristais etc. dos Estados Unidos” ( o anúncio é repetido no nº 16 da mesma revista, de 14/07/1889)

1889- o nome de Manoel Soares Gomes aparece no topo de um rol de cem comerciantes que encaminham documento ao governador Francisco José Cardoso Jr. felicitando-o pelo modo como conduziu o Estado -- mantendo o “princípio de autoridade” e assegurando a “ordem pública” -- por ocasião dos acontecimentos políticos que acabavam de ocorrer (instauração da República). Segundo o historiador David Carneiro, tal movimento daria como resultado a criação da Associação Comercial do Paraná, em julho de 1890

1891- falece em Curitiba em 22 de julho, aos 62 anos incompletos 

PS- Um artigo de Loreto Martins, publicado no "Correio do Paraná" de 25.08.1935, p.4, nº 971, informa que Manoel Soares Gomes tinha dois irmãos-- Antônio Soares Gomes e Joaquim Soares Gomes. Estes são referidos frequentemente, acrescento eu, nos jornais antigos do Paraná que pesquisei.